Arquivo da tag: werner herzog

Carta branca no CinePUC

Letzte Worte, de Werner Herzog

Em 2005, eu e Juliano Gomes fundamos o CinePUC, cineclube em DVD do curso de Cinema da PUC-Rio. Mantivemos o trabalho lá por 2 anos, e depois o passamos adiante para alguns amigos que começavam a cursar a faculdade naquela época. Este mês eles estão fazendo um ciclo carta branca, e recebemos o convite de voltar ao CinePUC para programar uma das sessões. Escolhemos alguns filmes de curta metragem de diretores que apreciamos e estaremos lá para a sessão de amanhã, a partir das 19h, na sala k102. Na sequência, participamos de um debate sobre os filmes. Vai ser um prazer. Estão todos convidados.

1. Elephant, de Alan Clarke, 1989, 39 min.
2. Le sabotier du Val de Loire, de Jacques Demy, 1956, 26 min.
3. Letzte worte, de Werner Herzog, 1968, 13 min.
4. Painéis de São Vicente de Fora – visão poética, de Manoel de Oliveira, 2010, 16 min.
5. The End of a Love Affair, de Pedro Costa e João Fiadeiro, 2006, 16 min

Herakles – de Werner Herzog (1962)

Herakles (nome original do herói trágico Hércules, como ficou conhecido a partir da adaptação do personagem grego à mitologia romana), primeiríssimo filme de Werner Herzog, tem uma estrutura bastante simples e da qual o filme nunca se permite distanciar: imagens de fisiculturistas em treinamento são questionadas por textos que descrevem passagens da trajetória de Hércules, que ganham representações modernas em imagens que parecem stock footage (a Hidra de Lerna, por exemplo, se torna um engarrafamento sem fim). A estrutura fechada não confina Herakles à repetição sistemática de um mesmo conceito, do início ao fim, pois Herzog não só nos surpreende a cada nova representação moderna dos trabalhos de Hércules, como aprofunda a natureza reflexiva do filme na medida em que essas camadas questionam e ressignificam a pulsão erótica e dominadora das imagens dos fisiculturistas.

Imagem, no caso, é uma palavra importante, pois Herzog – logo em seu primeiro curta – já parece movido pelo questionamento dos limites do próprio cinema. Diante das catástrofes contemporânea, o herói grego (um ideal de beleza e força) se revela frágil, obsoleto e ineficaz. O que resta é apenas a imagem da força, algo perfeitamente condensado no plano que ilustra este texto: um corpo em primeiro plano, refletido em um espelho no segundo plano, ao lado de um banner de uma ilustração de um outro corpo ideal. Herakles é um filme fortemente moderno por já colocar o cinema diante de sua limitação representacional, em época em que os heróis já não têm qualquer poder real de transformação e se transformaram em meros poster boys de uma aparência (de virtude, poder, virilidade, potência, etc).

Há, nos 10 minutos do curta, munição suficiente para atiçar os desejos auteristas: a preocupação aguda de Herzog com a transformação do corpo humano pulsa em cada veia dos corpos inchados dos fisiculturistas; o embate entre tradição e modernidade se dá até mesmo na natureza da produção das imagens (imagens feitas por Herzog confrontadas a stock footage); a tensão nos limites do documentário já surge aqui com bastante propriedade; o cinema surge como ferramenta questionadora, mas ainda assim limitada por uma certa regia de representação. Mas o que surge com uma força avassaladora neste belo filme de estréia – e que o faz tão diferente de filmes como o recente curta mineiro A Arquitetura do Corpo, de Marcos Pimentel – é o contentamento inquieto diante da necessidade de travar um duelo com este herói inútil, este ser estéticoesquartejado no enquadramento e na montagem que, ao contrário de Hércules, mas muito em harmonia com a estátua de Hércules que Winckelmann enxerga no torso sem cabeça ou membros, já não tem poder real ou serventia.