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Meus filmes favoritos em 2010

Não perdi minha resistência às listas de fim de ano. Mas como fiz uma sem muita dificuldade – nem rigor ou dedicação de pesquisa – achei que valia compartilhá-la por aqui. Como sempre, o critério é o calendário de estréias carioca. Faltou ver alguns filmes que me interessavam este ano, mas dificilmente algo que venha a abalar os 10 mais.


01- Brilho de uma Paixão (Bright Star), de Jane Campion  (Reino Unido/Austrália/França, 2009);
02- Filme Socialismo (Film Socialisme), de Jean-Luc Godard (Suíça/França, 2010);
03- Minha Terra, África (White Material), de Claire Denis (França/Camarões, 2009);
04- Machete, de Robert Rodriguez e Ethan Maniquis (EUA, 2010);
05- Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar (Gake no ue no Ponyo), de Hayao Myiazaki (Japão, 2008);
06- Ervas Daninhas (Les herbes folles), de Alain Resnais (França/Itália, 2009);
07- O que Resta do Tempo (The Time that Remains), de Elia Suleiman (Reino Unido/Itália/Bélgica/França, 2009);
08- Vencer (Vincere), de Marco Bellocchio (Itália, 2009);
09- O Escritor Fantasma (The Ghost Writer), de Roman Polanski (França/Alemanha/Reino Unido, 2010);
10- Toy Story 3, de Lee Unkrich (EUA, 2010).

Menção honrosa: Sempre Bela, de Manoel de Oliveira, e À Prova de Morte, de Quentin Tarantino, que entraram em cartaz este ano com anos de atraso (originalmente lançados em 2006 e 2007, respectivamente, e vistos em 2007).

Machete – de Robert Rodriguez e Ethan Maniquis (2010)

Machete já seria um filme notável por ser, provavelmente, a obra cinematográfica mais dedicada ao esculacho irrestrito (mas com alvo e intenção) desde O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla. Nunca antes a política neo-con norte americana havia sido tratada com justeza semelhante e Rodriguez (aqui co-assinando o filme com seu montador, Ethan Maniquis) sabe que não há mal menor a ser poupado do escárnio público. Mas essa força política só se confirma – e faz dele o grande filme que é – por uma aderência artística inabalável ao que é filmado. Pois embora tenhamos aqui um trabalho de gênero e de atestado cinéfilo aparentemente próximo de Planeta Terror (estão aqui todas as referências a John Woo; as personagens-homenagem ao faroeste spaghetti, com direito a heroína de nome Sartana e uma menção a Django; todo um trabalho de “baixa cultura” ainda filiado à estética Grindhouse), Machete se torna infinitamente melhor por nunca permitir que o pastiche vire paródia.

Embora Planeta Terror comece com uma força incontestável, Rodriguez advogava uma paixão pelo cinema de gênero que se diluía no deboche de suas convenções (caso bem parecido com o uso do humor no cinema de Bong Joon-ho). Crer – independente do objeto de crença – é algo que permite humor, mas nunca a auto-ironia, pois ela só se configura se essa chance de distanciamento não se apresentar sequer como uma possibilidade. Ridicularizar a fé é entendê-la como algo móvel; ao crente, não crer é uma idéia inconcebível.  No filme de 2007, a dedicação de levar cada convenção ao extremo eventualmente cruzava o limite do crível (que nada tem a ver com verossimilhança), e se tornava um comentário debochado sobre aquele gênero – exemplo maior: John Leguizamo andando de motocicleta de criança. Machete é um filme ainda mais extremo – em sua violência, em seu absurdo, em seu poder satírico – mas infinitamente melhor sucedido justamente por Rodriguez conseguir manter toda a tipificação e canastrice dentro de um limite crível no gênero e no próprio filme. Em momento algum há chance de descolamento do diretor do universo que ele filma – pior ainda se em nome da troça e da esperteza fácil de quem não quer por os pés na água. Machete – filme e personagem – é forte demais para permitir que esse tipo de distância seja assentada, e a energia despendida com a auto-ironia em Planeta Terror aqui se acumula em cada cena, em cada golpe, em cada novo grau na escala de avacalhamento que o filme galga com obstinação e maestria.