Zabriskie Point, Michelangelo Antonioni, 1970
Gerry, Gus Van Sant, 2002
Old Joy, Kelly Reichardt, 2006
Zabriskie Point, Michelangelo Antonioni, 1970
Gerry, Gus Van Sant, 2002
Old Joy, Kelly Reichardt, 2006

Saindo da sessão inesquecível de The Fountainhead apresentada por Luc Moullet no Rio, conversei algumas coisas sobre classicismo com o Ricardo Pretti (coincidência bem apropriada, uma vez que Os Monstros me alimentou com uma série de questões a esse respeito) que me parecem dignas de alguma sistematização na incompletude deste blog:
1. The Fountainhead é um filme propositivo, diria até positivo. Há uma postura clara diante da arte e da postura do artista no mundo em sua época, trabalhada com uma eloquência e clareza ideológicas que hoje me parecem impossíveis, não só moralmente mas principalmente esteticamente. Nesse sentido, o filme me faz lembrar a análise de inadequação e readequação de Édipo Rei ao longo do tempo, feita por Rancière (sempre ele) em O Inconsciente Estético, obra que em um período pré-estético era de transposição impossível:
“Impossível não porque mata o pai e se deita com a mãe, mas pelo modo como aprende, pela identidade que encarna nesse aprendizado, a identidade trágica do saber e do não-saber, da ação voluntária e do pathos sofrido”;
2. O filme seria impossível hoje, portanto, não por questões morais, mas por questões artísticas: em nenhum filme contemporâneo o arquiteto Howard Roark (Gary Copper) seria julgado inocente. E isso seria desta forma não exatamente por uma questão moral, mas por um reconhecimento de uma certa impotência da arte diante do mundo que passa longe do filme de King Vidor – os finais afirmativos não parecem mais possíveis hoje, dentro de um cinema “sério”. Não à toa, o único filme recente que me vem à lembrança a encarar o artista como um herói positivo é Ratatouille, de Brad Bird, e que tal narrativa só seja possível hoje em uma modalidade tão intrinsecamente fantasiosa quanto a animação só reforça a profundidade da tragédia;
3. Essa impossibilidade é, também, da ordem da construção da própria obra: King Vidor é de uma precisão espantosa em articular imagens que já contém, em si, enorme sentido – basta lembrar de um plano logo no começo do filme em que os prédios da cidade são vistos pela janela de uma ambulância, com a cruz colocando toda a cidade em estado de emergência. Com exceção de Clint Eastwood, diretor que goza de maior prestígio hoje do que nas décadas passadas, tais procedimentos parecem reservados a diretores tidos pelo senso comum (erradamente, nunca é demais ressaltar) como decadentes: John Carpenter, Wes Craven, M. Night Shyamalan, etc. São alguns poucos diretores que trabalham na indústria e ainda fazem filmes sobre alguma coisa que não sobre os próprios filmes – como é o caso de Machete, Bastardos Inglórios, Toy Story 3, Kick Ass, filmes interessantes a seu modo, mas que em grande medida se limitam a girar em torno de sua própria construção. Nesse sentido, não é à toa que o final de The Fountainhead seja hoje impossível (embora, lembremos, o plano final da ascensão pode ser tanto significado de glória quanto de morte): tais artistas perderam a briga;
4. É bastante sintomático que a atividade do protagonista de The Fountainhead seja a arquitetura. Sintomático pois a arquitetura moderna defendida abertamente pelo filme (mesmo que com um caráter simbólico que, na verdade, determina mais uma atitude diante da arte do que uma proposta ou um estilo) será justamente o ponto da sociedade moderna atacado frontalmente pouco mais de 10 anos depois por Antonioni, em A Noite ou A Aventura, e mais tarde em Profissão: Repórter – que encontra em Gaudí algum alento. Por mais que o diagnóstico de Antonioni me pareça correto – basicamente, a de que esses caixotes de concreto armado teoricamente funcionais que marcam a arquitetura moderna estão deixando todos malucos – não deixa de ser comovente que, em The Fountainhead, um projeto de futuro ainda pareça possível. Não à toa, Antonioni é um dos marcos fundamentais da afasia contemporânea que empesteia o cinema recente por questões também morais, mas principalmente artísticas;

5. Por outro lado, se esse cinema morreu, como ele continua tão absolutamente embasbacante não só em toda sua construção (há um trabalho de contra-plongeé tão forte no filme que faz qualquer plano/contraplano ser de uma potência incrível), mas também em sua assertividade? Vendo The Fountainhead, não consigo me afastar da sensação de que o cinema moderno teria – mui esteticamente – se esforçado para superar um paradigma ainda mais vivo do que qualquer coisa que ele soube oferecer em troca. Talvez o filme recente a melhor reconhecer isto tenha sido Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes, que mostra, na já antológica cena de “Morrer de Amor”, que o que parece superado, cafona, até kitsch, pode ter uma força ainda avassaladora se enquadrado em seu devido espaço e significado.
Publicado em Cinema
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