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Estou voltando após breve sumiço aqui do blog, o que não significa que eu não estivesse por aí. E como eu não faço o apanhadão de links há muito tempo, vamos a ele:

- Acabei de publicar no Dissonata a segunda ZipTape do blog. As ZipTapes são coletâneas comentadas de canções (novas ou não) que ando ouvindo no momento, e que pretendo lançar na primeira quinzena de cada mês. As duas primeiras já estão no ar. Aproveitem.

- Últimos textos na página principal da Cinética:
. Cobertura do 20o Cine Ceará;
. Crítica de Adventureland, de Greg Mottola;
. Texto sobre Paisagem na Neblina, de Theo Angelopoulos, escrito para a última Sessão Cinética.
. Crítica de Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton;
. Crítica de
O Infenro de Henri-Georges Clouzot, de Serge Bromberg e Ruxana Medrea.

- E na edição 51 da revista FilmeCultura, assino um dos textos sobre Estômago, de Marcos Jorge.

O Homem que Amava as Mulheres (L’homme qui aimait les femmes) – François Truffaut (1977)

Quando Bertrand Morane (Charles Denner) começa a remontar suas lembranças masculinas mais remotas, François Truffaut dá o salto – um tanto previsível, mas por isso mesmo problematizável pelo próprio diretor, como veremos – para as memórias em preto e branco. Vemos, ali, os momentos que antecedem sua iniciação sexual, em plano que termina no rosto da sua primeira mulher.

Logo após o rosto, Truffaut acrescenta um plano destoante que perturba a facilidade epidérmica do preto e branco. No meio das memórias, Truffaut insere um plano que, mesmo sendo majoritariamente monocromático (por ser uma silhueta em contraluz noturno), enquadra a soleira de uma porta o suficiente para que ela confira alguma cor à composição. Este plano não parece ter função narrativa que não a intromissão cromática: é um plano do presente que suspende a narração memorialista. Mais do que isso, é um plano colorido que se quer preto e branco; um plano do presente que tenta se igualar ao passado.

Depois dele, a sequência retoma o preto e branco, sem repetir ou comentar aquele breve lampejo de cor.

Bem adiante, as lembranças de Morane serão transformadas em livro. Em uma reunião de, uma das editoras defende a publicação da auto-biografia de Morane por ele reunir memórias de um homem ainda criança, de alguém que não quer crescer. É uma fala que literaliza a presença daquele plano colorido em meio às reminiscências em preto e branco, fazendo texto algo que Truffaut já mostrara, muito antes, com imagens.

Jean-Luc Godard

“Le droit d’auteur? Un auteur n’a que des devoirs”.

Traffic – Jacques Tati (1971)

Para além da maestria das gags encenadas, o que parece conferir ao humor de Traffic um tom tão particular talvez venha da escolha de enquadrá-lo em 1.37:1. O formato mais “quadrado” da tela é precioso justamente por sua inadequação: se um formato mais panorâmico (como o 1.85:1 de Play Time) privilegiaria a estrutura longilínea dos carros, a proporção do 1.37:1 gera um sensível estranhamento gráfico.

Com isso, faz-se necessário optar entre uma sobra maior de teto e chão – que faz os carros flutuarem de maneira atabalhoada no meio da composição – ou um enquadramento que corte as pontas laterais dos carros. Em ambos os casos, cria-se sempre um subtexto patético, anti-fetichista (pensemos aqui, como medida oposta, no uso do 2.35:1 em À Prova de Morte, de Quentin Tarantino), que traduz visualmente o espírito original do próprio filme, tão crítico das desmesuras da modernidade burguesa quanto qualquer outro filme de Jacques Tati.

Retratos

Denis Lavant por Leos Carax, em Sangue Ruim, 1986.

A Marquesa d´O… (Die Marquise von O…) – Eric Rohmer, 1976

A Marquesa d’O… é um filme sobre uma elipse de montagem. É a elipse – o corte temporal que nos omite uma ação, e aos poucos vai revelando a importância central daquilo que foi artificialmente extirpado para todo o resto do filme – que esconde o estupro da Marquesa, evento que atormentará todas as personagens do filme e norteará os desdobramentos dos da trama.

Mas o filme rapidamente nos dá a perceber que naquela elipse se deu o estupro, o que nos privilegia em relação a quase todas as personagens do filme. Elas passam todo o decorrer da narrativa tentando descobrir duas coisas que já sabemos: se houve ou não estupro, e quem seria o estuprador. A única pessoa que sabe o que aconteceu além do espectador é o próprio estuprador. Com isso, somos feitos seus cúmplices.

Rohmer segue com o filme como se ele próprio não tivesse presenciado o ocorrido (e de fato não presenciou, pois ele nunca é mostrado – está lá, escondido na elipse que preenchemos ligando pontos por nossa conta e risco), conduzindo o drama social de A Marquesa d’O… aos limites da mais borbulhante comédia de costumes. E nós, a cada risada de canto de boca, somos lembrados que sabemos de tudo que aconteceu, e que ainda assim rimos.

Avatar (idem) – James Cameron, 2009

Há equívocos um tanto incontornáveis nas duas leituras predominantes de Avatar na maior parte da crítica. A primeira, de que seria uma fábula banalmente ecológica. Esse equívoco se evidencia no nervo central do trabalho tecnológico do filme: Pandora é uma grande floresta artificial. Não há, portanto, defesa de um naturalismo enquanto tal (pensemos aqui em Mal dos Trópicos, por exemplo), pois James Cameron reconhece que a questão é menos de uma integração com um mundo natural, e mais com o mundo que existe à volta dos homens – seja ele como for. Interessa-lhe muito menos a floresta, e mais a sua representação. Assim como acontecia em Fim dos Tempos, de M. Night Shyamalan, se há uma consciência de integração ecológica em Avatar, é menos por um viés ocidental do termo, e mais pela temperança resistente no tao – onde a natureza é ampliada ao Absoluto, e a integração do homem não é exatamente com o verde, mas sim com o mundo em que ele vive, tal como ele se apresenta (pensemos, aqui, no cineasta que melhor fez o cinema encarnar esta idéia: Yasujiro Ozu). No caso de Avatar, a integração que interessa a James Cameron tem um caráter metalinguístico, pois se dá entre a personagem (o próprio avatar – ser criado a partir da alma que o habita, mas não só) e a cena onde ela se instala (Pandora – o próprio espaço da criação).

A segunda leitura é a simplificação florida de que o filme teria uma carga belicista – como se Avatar fosse um elogio às avessas aos marines, e todas as guerras fossem injustas e condenáveis. Lembremos, porém, que Jake Sully – o fuzileiro que, por ser jovem, concentra todas as atenções e esperanças do filme – nos é apresentado partido, alijado de suas forças reais, condenado a uma cadeira de rodas. O marine interessa menos como figura real (pois ela perdeu sua força de atuação) e mais como um arquétipo a ser reintegrado ao mundo ficcional (lembremos, aqui, da maneira como Rossellini trabalhava ícones da Igreja Católica não por acreditar em sua literalidade, mas sim por entender o seu poder como meio de transmissão direta de um sentimento ao espectador). É a ficção que tem o poder de devolver os guerreiros ao seu lugar no mundo, e diferenciar os marines dos guerreiros Na’vi é uma simplificação grosseira que ignora a correspondência de funções em suas respectivas sociedades, como se as bombas trouxessem uma violência ausente nas flechas envenenadas (A República volta a se fazer leitura essencial).

O que realmente me parece notável em Avatar é a percepção de que a harmonia só é alcançada se assimilarmos (sem neutralizar) a perturbação do corpo estranho. Jake Sully é o intruso que se faz messias, o mestiço, o sujeito que domará a ave dos deuses, aquela que introduz o vermelho ao filme, e que fere (ou melhor, redefine) a integração cromática dos verdes e azuis. O messias é a figura desestabilizadora, o farsante, o personagem que se revela enquanto tal. Essa integração entre dois mundos passa, em grande medida, pela maneira como natureza e cultura se complementam (é possível ver, em Avatar, um cruzamento de primorosa lisura entre Kracauer e os formalistas), e como uma é capaz de salvar a outra (Jake Sully ganha vida em Pandora, da mesma maneira que, como um messias, conserva a vida de Pandora). Avatar promove, com isso, uma reinserção da filosofia no mundo – seja ela de Platão ou de Jean-luc Nancy. A alegoria, porém, só é possível em sua absoluta literalidade: quando James Cameron diz “guerra” e lemos “Guerra do Iraque” (assim como ele diz “guerreiro”, e lemos “fuzileiro naval norte-americano”; ou diz “natureza” e pensamos em “floresta”), estaremos reduzindo o universal a específico, fazendo, do complexo, o que há de mais banal.

Retratos

Gena Rowlands

Gena Rowlands por John Cassavetes, em Faces, 1968.

Guerra ao Terror (The Hurt Locker) – Kathryn Bigelow, 2009

Uma das ambições centrais de Guerra ao Terror parece ser a de estabelecer a sensação de perigo da guerra enfatizando as limitações de visibilidade. Existem cenas que trabalham isso de maneira mais literal – que vão desde o uso da bomba de fumaça pelo sargento William James em sua primeira operação à longa e belíssima sequência dos atiradores escondidos em um prédio no meio do deserto – mas esse dado está realmente no centro da atividade do esquadrão de bombas. Basta lembrar da sequência em que William descobre que a bomba que desarmara estava conectada a várias outras, todas elas enterradas ao seu redor (foto 2).

A todo momento, o desafio do esquadrão protagonista é justamente o de enxergar o que é feito invisível. Mas Kathryn Bigelow usa um recurso que é ainda mais rico para alimentar essa leitura, talvez por ser ainda mais simples. Bigelow faz uma equivalência do deserto à selva (lugar onde os filmes de guerra costumavam se passar quase que exclusivamente até 10 ou 15 anos atrás), retirando das personagens qualquer possibilidade de referência espacial (lembremos da sequência à noite onde a cidade é filmada como um labirinto). Mais interessante, porém, é a maneira como ela transmite esse desamparo ao espectador, que é quebrando a todo momento o eixo da câmera. Essa opção faz com que cada corte se torne um exercício de suspense, embaralhando por completo os signos que permitem uma primeira identificação dos protagonistas. Em um momento vemos um soldado aliado à esquerda do protagonista, mas uma quebra de eixo o coloca, no plano seguinte, à sua direita. Esses primeiros segundos de entendimento do plano são, assim, ofuscados pela incerteza de identificação, onde a mão em close de um companheiro pode sempre se passar pela de um inimigo.

Memórias (The Neon Bible) – Terence Davies, 1995

Memórias se sustenta em um curioso espelhamento. Em sua trama, Gena Rowlands interpreta uma dançarina no ostracismo, que muda para a casa de sua irmã em uma pequena cidade do sul dos EUA, onde a dança é vista como coisa do diabo. Gena Rowlands desestabiliza a cidade com seu encanto demoníaco, em especial aos olhos do jovem protagonista, David (Jacob Tierney / Drake Bell). Mas o mais interessante é perceber como Gena Rowlands, atriz do diabo, desestabiliza a mise en scène ultra-cristã de Terence Davies.

Pois Davies, diretor de poses e planos-sequência, está mais para as máscaras biomecânicas de Meyerhold do que para Stanislawski ou Actors Studio. Gena Rowlands, com sua jocosidade extraordinária, desmonta por completo o universo de Davies, e Memórias é um filme que interessa justamente como um documento desse duelo desigual. É um caso exemplar de como uma grande atriz (mesmo não estando em momento particularmente especial) é capaz de destruir um filme de um diretor talentoso, e Rowlands – façamos justiça – é bem mais interessante de se olhar do que qualquer uma das criações de Terence Davies, aqui refém imobilizado por seus próprios traumas (só aqui? Certamente não, mas mais aqui que em qualquer outro filme), com um repertório imagético fragilíssimo (os planos do garoto tocando a lua, por exemplo). Resta esse testemunho de fracasso, e um ou outro plano mais inspirado – o melhor deles, o lençol branco que seca ao vento, e que Davies transforma em tela de cinema apenas trazendo à banda sonora o tema de E o Vento Levou…