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A música e a certeza de Deus: David Bazan + Bon Iver

David Bazan já lançou ao menos dois grandes discos: Achilles Heel, com o Pedro the Lion, e Curse Your Branches, seu primeiro disco solo. Ambos tiveram presença timidíssima no show que ele fez ontem no Bowery Ballroom, mas e daí se ele não tocou músicas que eu gostaria de ouvir? O que é a minha pirraça de consumidor específico e exigente diante do impacto do show como ele era?

Sempre se falou da carga cristã nas letras de David Bazan, mesmo depois de ele ter se assumido como agnóstico, mas o que me fascina – e que faz de Bazan um compositor de certa forma único no rock contemporâneo – é a maneira como esse vulto religioso se impõe em suas melodias. É um caso raro de artista no rock atual que me parece não exatamente humilde – nada humilde, eu diria – mas temente em suas composições. Para alguém que foi criado em um ambiente minimamente católico, suas variações em tom menor e o lento arrastar dos fonemas se conectam em melodias que parecem imemoriais, tiradas da própria matéria que nos traz ao mundo.

Essa ambiguidade absoluta de alguém que assume a voz de Deus para olhar para si mesmo, de cima, e cantar sobre sua própria pequenez pareceu ainda mais forte por o show de ontem ter sido essencialmente um espetáculo de rock, com um peso e uma pegada à Neil Young muito distante da morosidade que Bazan conjura em disco. E a força daquilo tudo vinha justamente do descompasso da fragilidade de suas melodias tão tementes a Deus, cientes da enormidade do mundo, sendo massacradas por toda aquela parede sonora que a cada canção parecia chegar um pouco à frente, empurrando Bazan para fora do palco, para o meio da platéia.

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Como abertura, S. Carey, um dos integrantes do Bon Iver, e aquela beleza chata e anódina que me manda pro bar em três músicas. De certa forma, é lamentável que o segundo disco do Bon Iver se pareça mais com o disco solo de S. Carey do que com For Emma, Forever Ago. Sempre pensei que uma boa descrição do poder de uma obra de arte está em uma frase de A República, do Platão, em que ele fala de objetos que se revelam em seus opostos, apresentando ao mesmo tempo uma sensação de dureza e de moleza, de solidez e de porosidade. É exatamente isso que promove a inclinação religosa de David Bazan, assim como a combinação de mágoa e afeto faziam de For Emma, Forever Ago um disco extraordinário. Já em Bon Iver, os vetores todos apontam para o mesmo lado o que, mesmo as canções não sendo ruins, faz uma obra essencialmente mais pobre. E a semelhança do disco com qualquer coisa que o Coldplay já fez obriga a mexer em um vespeiro que estava melhor deixado em paz: é preciso reavaliar o Bon Iver ou o Coldplay?

Resolução

Bem vindos ao novo Fabito’s Way. Há algum tempo eu já vinha insatisfeito com o andamento do meu velho blog, e o começo do Dissonata me fez decidir mudar de vez as crianças todas aqui pro WordPress. A estrutura do blog antigo – não só visual, mas também de conteúdo – já vinha me sufocando há tempos, e a idéia com este novo Fabito’s Way é justamente a de recuperar algo da leveza e, sobretudo, do prazer da escrita diária.

Conservarei por aqui algumas coisas que me agradavam no formato anterior, assim como descartarei outras que já não funcionavam. Dentre as eliminadas (ao menos por ora), as mais óbvias são as listas de fim de ano. Embora elas tenham funcionado por um tempo como uma boa desculpa para escrever sobre os filmes e discos que me marcaram em um determinado período, a necessidade de fazer isso acabou atravancando severamente o fluxo das postagens. Hoje tenho cada vez menos interesse por listas – seja por lê-las, ou por fazê-las. Sinto que não há, nelas, nem a distância necessária para as reavaliações, nem o calor do impacto recente. O que resta é apenas a diluição, a tentativa frustrada de restaurar uma mágica que o tempo já abrandou, e ainda não teve chance de avivar com outras cores. Pouparei o mundo dessa minha ineficácia.

Continuarei, porém, falando de tudo que realmente me move por aqui, com a diferença de que a partir de agora pretendo falar assim que a vontade surgir. Não tenho, aqui, qualquer pretensão de criar ou tomar parte em uma história maiúscula. Basta-me, portanto, reservar a este blog o que os blogs têm de vocação mais clara e forte: imprimir o calor das pulsões que empurram as palavras para fora.

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A quem ainda pudesse estar acompanhando, minha lista de melhores discos de 2008 chegou ao fim de 2009 incompleta. Como texto, permanecerá assim. Como indicação, talvez ainda valha dizer que os três primeiros colocados seriam:

3- TV On The Radio – Dear Science


2- Bon Iver – For Emma, Forever Ago


1- Ron Sexsmith – Exit Strategy of the Soul


São três discos extraordinários, sobre os quais adoraria ter escrito umas linhas… em 2008. Em 2010, eles permanecem, porém, belas audições – condição certamente mais justa e apropriada. Espero não deixar, no futuro, a morosidade e as contingências me obrigarem a dedicar a outros discos tão bons quanto esses um silêncio tão amarelo e inexpressivo.

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Eu posso não desejar a História, mas tenho enorme respeito pelas verdades de cada momento. Por conta disso, o velho Fabito’s Way permanecerá no ar, quietinho e imperturbável em sua sesta de Outono. Espiem o velhinho o quanto quiserem, mas lembrem-se que as pessoas de idade não raro são muito mais amáveis dormindo do que acordadas.